Tratamento moderno da dislipidemia: muito além das estatinas

Colesterol elevado exige um tratamento individualizado

A dislipidemia, caracterizada por alterações nos níveis de colesterol e/ou triglicerídeos, é um dos principais fatores de risco para doenças cardiovasculares, incluindo infarto do miocárdio, acidente vascular cerebral (AVC) e doença arterial periférica.

Embora muitas pessoas associem o tratamento apenas ao uso de medicamentos, a abordagem atual é muito mais ampla e personalizada. Hoje sabemos que o objetivo não é apenas reduzir os níveis de colesterol, mas diminuir o risco de eventos cardiovasculares e aumentar a expectativa e a qualidade de vida.

Para isso, cada paciente deve ser avaliado de forma individual, considerando seu histórico clínico, fatores de risco e metas específicas de colesterol LDL.

O primeiro passo: mudanças no estilo de vida

A base do tratamento continua sendo a adoção de hábitos saudáveis.

Uma alimentação rica em vegetais, frutas, leguminosas, grãos integrais, azeite de oliva e proteínas magras, associada à prática regular de atividade física, perda de peso quando necessária e interrupção do tabagismo, contribui significativamente para a redução do risco cardiovascular.

Essas medidas são fundamentais mesmo quando há necessidade de medicamentos.

No meu atendimento, o paciente recebe orientações precisas e calculadas sobre sua dieta. Em conjunto com nutricionista, elaboramos as orientações alimentares personalizadas.

Estatinas: o tratamento de primeira escolha

As estatinas permanecem como a principal classe de medicamentos para redução do colesterol LDL (“colesterol ruim”).

Além de reduzirem o LDL, possuem ampla evidência científica demonstrando diminuição do risco de infarto, AVC e morte cardiovascular.

Na maioria dos pacientes, elas representam a primeira opção terapêutica.

Quando as estatinas não são suficientes

Alguns pacientes apresentam risco cardiovascular muito elevado ou possuem formas hereditárias de colesterol alto.

Nessas situações, mesmo utilizando estatinas em doses adequadas, os níveis de LDL podem permanecer acima das metas recomendadas pelas diretrizes.

Nesses casos, a associação de outros medicamentos pode ser necessária.

Ezetimiba

A ezetimiba reduz a absorção intestinal de colesterol e costuma ser o primeiro medicamento associado às estatinas quando é necessário intensificar o tratamento.

É uma opção segura, bem tolerada e capaz de promover reduções adicionais do colesterol LDL.

Inibidores da PCSK9: uma nova geração de tratamento

Nas últimas décadas, surgiram medicamentos capazes de reduzir o colesterol de forma ainda mais intensa.

Entre eles estão os inibidores da PCSK9, como o evolocumabe (Repatha®) e o alirocumabe (Praluent®).

Esses medicamentos aumentam a capacidade do fígado de remover o colesterol LDL da circulação, podendo reduzir seus níveis em aproximadamente 60%, além do efeito já obtido com as estatinas.

Estudos clínicos demonstraram que, além de diminuir significativamente o colesterol, esses medicamentos reduzem o risco de infarto, AVC e outros eventos cardiovasculares em pacientes de alto risco.

São indicados principalmente para:

  • pacientes com doença cardiovascular estabelecida;
  • hipercolesterolemia familiar;
  • indivíduos que permanecem acima da meta de LDL apesar do tratamento convencional;
  • alguns pacientes com intolerância às estatinas.

Inclisirana: uma nova estratégia terapêutica

Outra inovação recente é a inclisirana, um medicamento baseado em tecnologia de RNA interferente (siRNA).

Ao reduzir a produção da proteína PCSK9 pelo fígado, promove queda sustentada do colesterol LDL.

Seu grande diferencial é a praticidade: após as doses iniciais, o medicamento é administrado apenas duas vezes ao ano, favorecendo a adesão ao tratamento em pacientes selecionados.

Ácido bempedoico

O ácido bempedoico representa outra alternativa para pacientes que não atingem as metas de LDL ou apresentam intolerância às estatinas.

Ele atua por um mecanismo diferente das estatinas e pode ser utilizado isoladamente ou em associação com outros medicamentos, conforme a indicação clínica.

O tratamento é definido pelo risco cardiovascular

Atualmente, o tratamento da dislipidemia não depende apenas do valor do colesterol.

A decisão terapêutica leva em consideração diversos fatores, entre eles:

  • idade;
  • diabetes;
  • hipertensão arterial;
  • obesidade;
  • doença renal crônica;
  • tabagismo;
  • histórico familiar;
  • presença prévia de infarto, AVC ou outras doenças cardiovasculares.

Quanto maior o risco cardiovascular, menores são as metas de colesterol LDL recomendadas.

Por isso, duas pessoas com o mesmo colesterol podem receber tratamentos completamente diferentes.

O papel do endocrinologista

Como endocrinologista, avalio a saúde metabólica de forma integrada.

Além dos níveis de colesterol, considero fatores como obesidade, diabetes, pré-diabetes, síndrome metabólica, composição corporal e presença de gordura no fígado para definir a melhor estratégia terapêutica.

Quando necessário, utilizo desde mudanças no estilo de vida até as terapias mais modernas disponíveis, sempre baseando as decisões nas evidências científicas mais atuais e nas recomendações das principais diretrizes internacionais.

Um tratamento personalizado para proteger o coração

O tratamento da dislipidemia evoluiu muito nos últimos anos. Hoje dispomos de diferentes opções terapêuticas capazes de reduzir significativamente o colesterol LDL e, principalmente, diminuir o risco de infarto e AVC.

A escolha do tratamento ideal deve ser individualizada, considerando o perfil clínico de cada paciente, suas metas de colesterol e seu risco cardiovascular.

O objetivo final não é apenas melhorar os resultados dos exames, mas preservar a saúde cardiovascular e proporcionar mais qualidade de vida a longo prazo.

Dra. Giulia Guerra

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